agosto 29, 2012

Abandono - Flora Figueiredo

"A vida ficou de repente apática e desinteressada, como se pretendesse descer na próxima parada. Abafou os sons que costumava ouvir, com medo de sentir saudade. Baixou os toldos sobre a claridade, para que o brilho do dia não arranhasse a solidão. Preferia permanecer quieta e sombria. Guardou o açucar como se quisesse impedir o doce de mesclar o fel que, porventura, houvesse. Sensações e sentimentos devidamente amordaçados, rabiscou no papel seu breve recado: "Sai para almoço. Pretendo voltar, não sei se posso. Seja, por favor, condescendente. Quando o amor não está, é costume da vida suspender o expediente." 

Flora Figueiredo