maio 23, 2017

Guerra íntima

As piores batalhas são as pessoais, cujo inimigo mora dentro da gente. As vezes ele é até um completo desconhecido, noutras alguém que conhecemos muito bem. Nos acuamos e nos escondemos atrás das trincheiras do inconformismo, afinal sabemos que não temos armas tão poderosas.
Há constantemente fogo cruzado riscando o céu do sossego, mas em meio ao combate cerrado, eis que surge um momento de calmaria, de total silêncio. A guerra por um instante parece ter acabado, mas um estrondo revela uma nova explosão; uma bomba muito próxima da gente. Somos atingidos pelos estilhaços e nos ferimos, perdemos momentaneamente a noção do tempo e do espaço, a surdez imediata nos desequilibra, nos entontece.
Esse nosso inimigo é cruel, cria ciladas para nos enganar, nos faz acreditar que estejamos vencidos, mas então descobrimos que ainda temos uma arma comumente poderosa, e que fica escondida na manga do nosso desassossego; mais uma vez revidamos.
Como toda guerra, a pessoal jamais termina. Ela extermina os mais fracos, mas em nome da paz que todos buscamos, precisamos dar um basta, principalmente aos conflitos existenciais. Apesar de jamais baixar a guarda, devemos confiar no anjo da ternura; que ele venha confortar nosso coração, acalmar nossas aflições. Ele nos ensina inclusive, que as palavras são mais poderosas que qualquer arma de fogo, porque elas nos dão asas e nos permitem que voemos para longe do combate injusto.
Talvez nunca vejamos a guerra terminada, mas poderemos um dia quem sabe, contemplar um horizonte sereno, quando no fim da vida teremos certeza de que lutamos dignamente para sermos vencedores.


do livro em andamento Histórias de nossas vidas