junho 08, 2017

Sono de menina

Conforme fui crescendo, as chances de servirem em mim roupas feitas para a minha idade foram diminuindo. Já tinha, desde jovenzinha, pernas e braços muito longos.
Quando mamãe comprava uma calça jeans, na época só existia a "rancheira", ela tinha que inventar, costurando retalhos na barra, para que o comprimento bastasse.
Ninguém usava roupas como as minhas, eram diferentes de tudo, e eu jamais me sentia mal por isso, muito pelo contrário. Orgulhava-me de ter uma mamãe costureira, que sempre me vestia com muito capricho.
Toda semana eu tinha roupas novas para vestir. As clientes, chamadas por ela de freguesas, encomendavam roupas e dispensavam as sobras; era um prato cheio para alguém tão cheia de criatividade e talentos. Cresci assim, mimada e rodeada de amor.
Éramos uma família simples, de praticamente nenhuma posse. Morávamos em casa de aluguel, que tinha apenas dois quartos, mas naquele tempo, as casas eram bem grandes. Eu e meu irmãozinho dividíamos um dos quartos com nossa avó e bisavó, que moravam conosco. Mãe e avó de meu pai.
As noites naquele quarto eram bizarras. O tremular da vela, acesa num altar montado ao lado do guarda roupas, ficava ao pé da minha cama. Eu tinha medo do escuro, mais ainda das sombras que tremulavam na parede.
Eu acreditava em bicho papão e em homem do saco, era de praxe crianças temerem o que lhes fora ensinado. Já era mocinha, mas ainda tinha sentimentos de uma criança.
Minha cama ficava encostada na parede, perto da janela. Eu jamais dormia esticada; se assim o fizesse, meus pés ficavam para fora e os braços dependurados. O medo de que algo estivesse debaixo dela e viesse me puxar, me aterrorizava. Desde então, eu jamais me senti muito confortável na hora de dormir, mesmo já amadurecida. Carreguei comigo este desconforto, custei para entender sobre meus medos infundados.
Teve uma noite, que eu acabei me virando e deixei de manter as costas grudadas na parede, ficou virada para fora, totalmente vulnerável. Como eu estava sonolenta, já quase entrando no sono profundo, não me dei conta da minha posição e foi quando eu senti algumas cutucadas. Era como se alguém que eu não via, tivesse me tocado com os dedos.  Dei um pulo e despertei chorando. Nada parecia me acalmar. Acordei todos com meu escândalo e me lembro que meu irmão achou graça. Quem me acudiu foi minha avó Maria, ela sentou-se ao meu lado e rezou, sabia que isso me acalmaria.
No dia seguinte decidiu me ensinar as orações, pois eu ainda não sabia. Decorei o Pai Nosso, a Ave Maria e o Credo, este último só me lembro de pequenos trechos.
Embora depois que cresçamos, muitos de nós passemos a desacreditar no poder das orações, se recitadas com fé, elas realmente funcionam. Hoje eu continuo rezando, mas não recito as decoradas. Eu converso com Deus, com o meu anjo da guarda e peço que continuem me orientando, protegendo, sem nunca esquecer de agradecer por tudo que já vivi e que ainda tenho a viver.
Com os antigos aprendemos muito, tolice a nossa inventar versões absurdas sobre a nossa existência espiritual, quando sabemos que pouco sabemos sobre a sua substância. Mesmo que não sigamos as religiões de quando éramos crianças, uma coisa é certa, não precisamos temer que sejamos maltratados por entidades sobrenaturais. Elas existem de fato, mas a sua intervenção, algumas vezes, é apenas a forma que encontram para aproximarem-se de nós. Não estamos preparados para alcançar a dimensão desse propósito e somente a nossa crença e prática do bem, é que poderá nos confortar e proteger. Em casa de quem tem fé, não entra assombração.

do livro em andamento Pé na Roça